Doar óvulos: o que é mito e o que é verdade?

22nd of October, 2026

Para muitas mulheres que querem ser mães, os próprios óvulos já não são uma opção. Isso acontece com quem entrou na menopausa antes dos 40 anos, com quem passou por tratamentos contra o câncer, com quem tem a reserva ovariana muito baixa ou tem uma doença genética que não quer transmitir aos filhos. Para elas, a gravidez depende de outra mulher disposta a doar óvulos.

Ao mesmo tempo, a doação ainda é cercada de dúvidas e de medos. Será que doar diminui a minha fertilidade? Alguém vai me procurar no futuro? A criança será minha filha? Em 2025, 12% das primeiras consultas da Originare foram de mulheres interessadas em doar, um sinal de que o interesse existe, mas também de que a informação correta precisa chegar a mais gente.

Reunimos aqui os principais mitos e verdades sobre a doação de óvulos no Brasil, com base nas regras do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Como funciona a doação de óvulos

A doadora passa por uma avaliação completa de saúde. Se estiver apta, faz uma estimulação dos ovários com medicações hormonais por cerca de 10 a 12 dias. Depois, os óvulos são coletados em um procedimento rápido, com sedação, e encaminhados para uma ou mais receptoras.

No laboratório, os óvulos doados são fecundados com o sêmen do parceiro da receptora ou de um doador. O embrião formado é transferido para o útero da receptora, que vive a gestação.

As regras estão na Resolução CFM nº 2.320/2022. Ela proíbe o comércio de óvulos, garante o anonimato entre doadora e receptora e permite a chamada doação compartilhada, em que doadora e receptora dividem os óvulos e os custos do tratamento.

Mitos e verdades sobre a doação de óvulos

"Doar óvulos diminui a minha reserva ovariana": mito

Este é o medo mais comum, e ele vem de uma ideia errada sobre como os ovários funcionam.

A cada ciclo menstrual, o corpo seleciona um grupo de folículos, as pequenas bolsas que guardam os óvulos. Em geral, só um deles amadurece e ovula. Os outros param de se desenvolver e se perdem naturalmente, todos os meses, mesmo em quem usa anticoncepcional.

A estimulação hormonal da doação não "puxa" óvulos do estoque futuro. Ela faz amadurecer os folículos daquele mesmo grupo que se perderiam no ciclo. Por isso, a doação não antecipa a menopausa nem reduz a fertilidade futura de uma mulher saudável. Essa avaliação é feita antes, nos exames de reserva ovariana, que também servem para confirmar se a mulher pode doar.

"Vou vender meus óvulos": mito

No Brasil, a doação de óvulos não pode ter caráter lucrativo ou comercial. A doadora não recebe pagamento pelos óvulos.

O que a resolução permite é a doação compartilhada. Nela, uma mulher que vai passar pela estimulação, seja para tratamento ou para congelar os próprios óvulos, divide os óvulos coletados com uma receptora, e as duas compartilham os custos do procedimento. É um modelo diferente da venda, que é proibida, e diferente do que acontece em outros países, como os Estados Unidos, onde a doadora pode ser remunerada.

"A receptora ou a criança vão me procurar no futuro": mito

A doação no Brasil é anônima. A doadora não conhece a identidade da receptora, e a receptora não conhece a identidade da doadora. A clínica guarda os dados clínicos e as características físicas da doadora, mas a identidade civil dela é protegida.

Em situações médicas específicas, as informações de saúde podem ser acessadas por médicos, sem revelar quem é a doadora. A única exceção ao anonimato é a doação entre parentes de até quarto grau, como irmãs e primas, desde que isso não gere consanguinidade com o parceiro da receptora.

"A criança gerada vai ser legalmente minha filha": mito

A mãe da criança é a mulher que recebeu os óvulos e a família que planejou a gestação. O Provimento nº 149/2023 do Conselho Nacional de Justiça é claro: o conhecimento da origem genética não gera vínculo de parentesco entre a doadora e a criança, nem direitos ou deveres.

A doadora não tem nenhuma responsabilidade sobre a criança, e a criança não tem direito a herança nem a pensão da doadora.

"Qualquer mulher pode doar óvulos": mito

A doação tem critérios. Pela resolução do CFM, a doadora precisa ter entre 18 e 37 anos. Cada clínica e cada programa podem ter critérios mais restritos, já que a qualidade dos óvulos diminui com a idade.

Antes de doar, a mulher passa por uma avaliação que costuma incluir:

•        consulta clínica e histórico de saúde pessoal e familiar;

•        exames de reserva ovariana, como o hormônio antimülleriano (AMH) e o ultrassom;

•        cariótipo, um exame que avalia os cromossomos;

•        painel genético, para identificar doenças que podem ser transmitidas;

•        sorologias para infecções como HIV, hepatites e sífilis;

•        avaliação psicológica, em muitas clínicas.

Profissionais da equipe da clínica não podem ser doadoras nos programas de reprodução assistida em que trabalham.

"Uma mesma doadora pode gerar dezenas de crianças": mito

A resolução do CFM limita o número de nascimentos por doadora. Em uma região de um milhão de habitantes, uma mesma doadora pode ter gerado no máximo duas crianças de sexos diferentes. A regra existe para reduzir o risco de que pessoas geradas pela mesma doadora se relacionem no futuro sem saber.

O limite não se aplica quando a mesma família usa óvulos da mesma doadora para ter mais de um filho.

"A receptora escolhe a doadora por foto": mito

Na doação compartilhada, quem escolhe a doadora é o médico responsável pelo tratamento. A escolha busca a maior semelhança física possível com a receptora, considerando características como tipo sanguíneo, cor da pele, dos olhos e dos cabelos, altura e tipo físico. A receptora precisa concordar com a escolha, mas não vê fotos nem tem acesso à identidade da doadora.

"Doar óvulos dói e é arriscado": meia verdade

A estimulação é feita com injeções aplicadas pela própria doadora, em geral na barriga, com agulhas finas. Algumas mulheres sentem inchaço e desconforto abdominal nos dias antes da coleta. A coleta é feita com sedação, e a maioria volta à rotina no dia seguinte.

O principal risco é a síndrome de hiperestimulação ovariana, uma reação exagerada dos ovários aos hormônios. Ela é pouco frequente, e os protocolos atuais, com doses ajustadas e medicamentos específicos para desencadear a ovulação, reduzem bastante essa chance. A doadora é acompanhada com ultrassons e exames durante todo o processo, e qualquer sinal de alerta deve ser comunicado à equipe.

"Doar pode ajudar a doadora a conhecer a própria saúde": verdade

Muitas mulheres descobrem informações importantes sobre a própria saúde durante a avaliação para doar. Os exames mostram a reserva ovariana, o cariótipo e o resultado do painel genético, dados que ajudam a pensar no próprio planejamento reprodutivo.

Em alguns casos, os exames mostram que a mulher não pode doar, por exemplo, por ser portadora de uma alteração genética. Mesmo nessa situação, a informação é útil para os planos dela de ter filhos.

"Óvulos doados dão chances reais de gravidez": verdade

As chances de gravidez com óvulos doados dependem principalmente da idade da doadora, e não da idade da receptora. Como as doadoras são jovens e saudáveis, as taxas costumam ser maiores do que as de mulheres mais velhas que tentam com os próprios óvulos. Por isso, a ovodoação é uma das opções mais indicadas para mulheres com reserva ovariana muito baixa ou em menopausa precoce.

Nenhuma técnica de reprodução assistida tem resultado garantido. As chances de cada receptora são avaliadas em consulta, levando em conta a saúde do útero e as condições gerais para a gravidez.

Para quem a ovodoação é indicada

Do outro lado da doação estão as receptoras. A fertilização in vitro com óvulos doados costuma ser indicada para:

•        mulheres com insuficiência ovariana prematura, a menopausa antes dos 40 anos;

•        mulheres com a reserva ovariana muito baixa, em que a FIV com os próprios óvulos tem chances muito pequenas;

•        pacientes que perderam a função dos ovários depois de quimioterapia, radioterapia ou cirurgia;

•        mulheres com várias tentativas de FIV sem sucesso por baixa qualidade dos óvulos;

•        portadoras de doenças genéticas que não querem transmitir aos filhos;

•        casais de homens e homens sem parceria, que precisam de óvulos doados e de cessão temporária de útero.

Para muitas receptoras, aceitar a doação envolve um processo de luto pelo vínculo genético com o filho. O acompanhamento psicológico ajuda nessa decisão e na conversa futura com a criança sobre a origem dela. Assim como em outras famílias formadas com doadores, contar cedo, em linguagem adequada à idade, costuma ser o caminho recomendado.

Doar e congelar ao mesmo tempo

Uma forma de doação que tem crescido é a que une dois objetivos: a mulher congela parte dos óvulos coletados para usar no futuro e doa a outra parte, de forma anônima, para uma receptora. Ela passa por uma única estimulação e uma única coleta.

Na Originare, esse modelo é o programa Preserva + Doa. Ele tem critérios próprios de idade e de avaliação de saúde. Para saber se você se encaixa, o primeiro passo é uma consulta com a equipe. Leia também nosso guia sobre congelamento de óvulos.

Perguntas frequentes sobre doação de óvulos

Doar óvulos causa menopausa precoce?

Não. A estimulação aproveita óvulos que se perderiam naturalmente naquele ciclo, sem reduzir a reserva futura de uma mulher saudável.

A doadora de óvulos recebe pagamento?

Não. No Brasil, a doação não pode ter caráter comercial. A resolução do CFM permite a doação compartilhada, em que doadora e receptora dividem os óvulos e os custos do tratamento.

A doação de óvulos é anônima?

Sim. Doadora e receptora não conhecem a identidade uma da outra. A exceção é a doação entre parentes de até quarto grau.

Qual a idade para doar óvulos?

Pela Resolução CFM nº 2.320/2022, entre 18 e 37 anos. Programas específicos podem ter limites menores.

A doadora tem algum vínculo com a criança?

Não. Pelas normas do CNJ, a doação não gera parentesco nem direitos ou deveres entre a doadora e a criança.

Por onde começar

Se você está pensando em doar óvulos, ou em doar e congelar ao mesmo tempo, a consulta inicial serve para tirar dúvidas, avaliar a reserva ovariana e explicar cada etapa antes de qualquer decisão. Se você é receptora e quer entender se a ovodoação é o caminho para você, a conversa começa do mesmo jeito.

Agende uma consulta com um especialista da Originare

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica individual. Diretor técnico-médico: Dr. Luiz F. Henrique, CRM-SP 120.314, RQE 575861.