Existe uma fila de mulheres esperando por um óvulo doado
Entre 2019 e 2023, pelo menos 5 mil bebês nasceram no Brasil a partir de óvulos doados. É um em cada oito bebês gerados por fertilização in vitro no período, segundo a Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida (REDLARA). Por trás de cada um desses nascimentos houve uma mulher que doou e outra que, muitas vezes, esperou meses por essa doação.
A fila por óvulos doados não aparece nas notícias como a fila de transplantes, mas ela existe. Não há um cadastro nacional nem um banco público de óvulos no país. Cada clínica organiza a própria lista de receptoras e depende de mulheres dispostas a doar. Quando a procura é maior do que o número de doadoras, quem precisa espera.
Este artigo explica por que essa fila existe, quem está nela, quanto tempo a espera pode durar e o que pode ser feito para que ela ande mais rápido.
Quem precisa de um óvulo doado
A fertilização in vitro com óvulos doados é indicada quando os óvulos da própria mulher não oferecem uma chance real de gravidez, ou quando ela não tem mais óvulos. As situações mais comuns são:
• menopausa precoce, ou insuficiência ovariana prematura, antes dos 40 anos;
• reserva ovariana muito baixa, em que a FIV com os próprios óvulos tem chances muito pequenas;
• perda da função dos ovários depois de quimioterapia, radioterapia ou cirurgia;
• várias tentativas de FIV sem sucesso por baixa qualidade dos óvulos;
• doenças genéticas que a mulher não quer transmitir aos filhos;
• casais de homens e homens sem parceria, que precisam de óvulos doados e de cessão temporária de útero.
Para muitas dessas pessoas, a ovodoação é a única forma de viver uma gestação. Como as doadoras são jovens, as chances de gravidez com óvulos doados dependem principalmente da idade da doadora, e não da idade da receptora.
Por que existe uma fila
A fila é resultado de três fatores que se somam.
A doação no Brasil é voluntária e não pode ser paga
A Resolução CFM nº 2.320/2022 proíbe qualquer caráter lucrativo ou comercial na doação de óvulos. Diferente do que acontece em países como os Estados Unidos e a Espanha, a doadora brasileira não recebe pagamento.
A resolução permite a doação compartilhada, em que uma mulher que já vai passar pela estimulação ovariana, para tratamento ou para congelar os próprios óvulos, divide parte dos óvulos com uma receptora. Esse modelo é a principal fonte de óvulos doados no país. Mas ele depende de que essas mulheres conheçam a possibilidade e escolham doar.
Doar exige critérios
Nem toda mulher que quer doar pode doar. A resolução do CFM exige idade entre 18 e 37 anos, e as clínicas costumam ter critérios ainda mais restritos. A candidata passa por uma avaliação que inclui reserva ovariana, cariótipo, painel genético, sorologias para infecções e, em muitas clínicas, avaliação psicológica. Parte das candidatas descobre nos exames que não pode doar.
A busca é por semelhança física
A doadora não é sorteada. Pela resolução, o médico escolhe a doadora com a maior semelhança física possível com a receptora, considerando tipo sanguíneo, cor da pele, dos olhos e dos cabelos, altura e tipo físico. A receptora precisa concordar com a escolha.
Isso significa que a fila não é uma só. Uma receptora com características físicas comuns entre as doadoras da clínica pode encontrar uma correspondência mais rápido. Uma receptora com características menos frequentes pode esperar mais, porque precisa de uma doadora parecida com ela.
Quantas mulheres doam no Brasil
Os números públicos sobre doação de óvulos no Brasil são limitados. A REDLARA estima que cerca de 18.500 pessoas doaram óvulos no país em cinco anos, com base em dados enviados voluntariamente pelas clínicas, que cobrem de 70% a 80% do total. Não existe um levantamento oficial com o número de receptoras à espera.
O que os dados permitem dizer é que a ovodoação já é parte importante da reprodução assistida no país. Os 5 mil bebês nascidos de óvulos doados entre 2019 e 2023 representam 12,5% dos nascimentos por FIV no período. Ao mesmo tempo, a procura cresce por motivos conhecidos: as mulheres estão tendo filhos mais tarde, e mais pessoas solteiras e casais LGBTQIA+ buscam a reprodução assistida.
Quanto tempo dura a espera
Não existe um prazo único, já que cada clínica tem a própria lista e cada receptora tem um perfil. Especialistas ouvidos pela revista Pesquisa FAPESP estimam que, no Brasil, conseguir óvulos doados para um tratamento leva de seis meses a um ano.
A espera pode ser mais curta em clínicas com programas de doação compartilhada ativos e mais longa em períodos de menor procura por congelamento de óvulos, que reduzem o número de doadoras disponíveis. O perfil físico da receptora também pesa no tempo.
Para uma mulher que já passou por tentativas frustradas ou por um diagnóstico de menopausa precoce, esses meses costumam ser difíceis. Por isso, o acompanhamento psicológico durante a espera faz parte do cuidado em muitas clínicas.
Óvulos importados encurtam a espera, com ressalvas
Como alternativa à fila, parte das receptoras recorre a óvulos importados, principalmente de bancos da Espanha e, mais recentemente, da Argentina. A importação depende de anuência da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e é feita por empresas habilitadas, nunca diretamente pela paciente.
Segundo dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio) citados pela Pesquisa FAPESP, o país passou a importar entre 2 mil e 3 mil óvulos por ano a partir de 2019, o equivalente a algo entre 5% e 10% dos ciclos de fertilização. Especialistas estimam que a importação pode reduzir o tempo de espera pela metade.
A importação tem pontos a considerar. Nesses países, as doadoras podem ser remuneradas, o que gera um debate ético, já que a doação paga é proibida no Brasil. Há ainda questões de rastreabilidade levantadas por pesquisadores, e os óvulos importados chegam congelados, o que exige que a clínica tenha experiência com descongelamento. É uma decisão para ser tomada com a equipe médica, com todas as informações na mesa.
Outras alternativas à fila
Além dos óvulos importados, existem outros caminhos, que dependem da situação de cada receptora:
• Doação entre parentes: a resolução do CFM permite que uma parente de até quarto grau, como irmã ou prima, doe óvulos, desde que isso não gere consanguinidade com o parceiro da receptora. Nesse caso, a doação não é anônima.
• Doação de embriões: casais que concluíram o tratamento e têm embriões congelados podem doá-los, de forma anônima, para outras pessoas. Nesse caso, nem os óvulos nem os espermatozoides são da família receptora.
• Óvulos congelados por doadoras: alguns programas trabalham com óvulos doados e já congelados, o que elimina a necessidade de sincronizar os ciclos da doadora e da receptora.
Cada caminho tem implicações próprias, inclusive emocionais, e vale conversar sobre elas antes de decidir.
O que faz a fila andar
A fila anda quando mais mulheres sabem que podem doar e decidem fazer isso. E muitas delas nunca ouviram falar da doação compartilhada.
Um mito afasta muitas potenciais doadoras: o medo de que doar diminua a própria fertilidade. Não diminui. A cada ciclo menstrual, o corpo recruta um grupo de folículos, e só um deles costuma amadurecer. Os outros se perdem naturalmente. A estimulação faz amadurecer os folículos desse mesmo grupo, sem tirar óvulos do estoque futuro. Você pode ler mais sobre isso no nosso artigo sobre mitos e verdades da doação de óvulos.
Outro ponto que ajuda a fila a andar é unir doação e preservação. Uma mulher que quer congelar os próprios óvulos pode, na mesma estimulação, doar parte deles para uma receptora. Na Originare, esse modelo é o programa Preserva + Doa. Em 2025, 12% das primeiras consultas da clínica foram de mulheres interessadas em doar, um sinal de que o interesse existe e cresce quando a informação chega.
Se você está na fila
Algumas perguntas ajudam a entender a sua situação e o tempo provável de espera:
• como funciona a lista de receptoras da clínica?
• quais características físicas estão sendo consideradas na busca pela minha doadora?
• existe a opção de óvulos importados ou de óvulos já congelados?
• a doação de embriões faz sentido para mim?
• o que posso fazer durante a espera, como exames do útero e preparo para a transferência?
Usar esse tempo para cuidar da saúde, completar exames e conversar com um psicólogo sobre a decisão costuma fazer diferença quando a doadora for encontrada.
A espera também é um momento para pensar em como a história será contada à criança no futuro. Famílias formadas com óvulos doados costumam ouvir a mesma recomendação dos especialistas: contar cedo, em linguagem adequada à idade, para que a origem faça parte da história da criança desde o começo, e não vire uma revelação difícil anos depois.
Perguntas frequentes
Existe um banco público de óvulos no Brasil?
Não. Cada clínica de reprodução assistida organiza a própria lista de receptoras e o próprio programa de doação, dentro das regras do CFM.
Quanto tempo se espera por um óvulo doado no Brasil?
Varia conforme a clínica e o perfil da receptora. Especialistas estimam de seis meses a um ano. A semelhança física exigida entre doadora e receptora influencia o tempo.
Posso escolher a doadora de óvulos?
Não. Na doação compartilhada, o médico escolhe a doadora com a maior semelhança física possível com a receptora, que precisa concordar com a escolha. A identidade da doadora é sempre sigilosa.
É possível importar óvulos doados?
Sim, com anuência da Anvisa e por meio de empresas importadoras habilitadas. A paciente não pode importar diretamente.
Como posso doar óvulos?
O primeiro passo é uma consulta em uma clínica de reprodução assistida, para avaliar a saúde e a reserva ovariana. Pela resolução do CFM, a doadora precisa ter entre 18 e 37 anos.
Por onde começar
Se você precisa de óvulos doados, a primeira consulta mostra se a ovodoação é o caminho indicado e como funciona a espera na clínica. Se você pensa em doar, ou em doar e congelar ao mesmo tempo, a consulta serve para avaliar se você pode participar e para tirar todas as dúvidas antes de qualquer decisão.
Agende uma consulta com um especialista da Originare
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica individual. Diretor técnico-médico: Dr. Luiz F. Henrique, CRM-SP 120.314, RQE 575861.