método ROPA
Uma das mães gera os óvulos. A outra gesta o bebê. É assim, em uma frase, que funciona o método ROPA, sigla para Recepção de Óvulos da Parceira. No Brasil, a técnica tem nome próprio nas normas do Conselho Federal de Medicina: gestação compartilhada.
Para muitos casais de mulheres, o ROPA resolve uma vontade que vai além de ter um filho. As duas participam fisicamente da história da criança, cada uma de um jeito. Abaixo estão as etapas do tratamento, o que diz a regulamentação, como o casal costuma decidir quem faz cada papel e o que é preciso para registrar o bebê no nome das duas mães.
O que é o método ROPA
O ROPA é uma fertilização in vitro (FIV) com uma divisão de papéis. Uma das parceiras passa pela estimulação dos ovários e pela coleta de óvulos. Esses óvulos são fecundados em laboratório com sêmen de um doador anônimo. O embrião formado é transferido para o útero da outra parceira, que vive a gestação e o parto.
Na prática, a criança tem a carga genética de uma das mães e foi gerada no corpo da outra. Os laços biológicos se dividem entre o óvulo e a gestação, e a maternidade jurídica é das duas desde o registro.
A Resolução CFM nº 2.320/2022 é direta sobre o tema. Ela permite a gestação compartilhada em união homoafetiva feminina e a define como a situação em que o embrião obtido com os óvulos de uma mulher é transferido para o útero da parceira. A norma não exige diagnóstico de infertilidade para nenhuma das duas.
Como funciona o tratamento, passo a passo
O ROPA segue o roteiro de uma FIV, com a diferença de que os procedimentos se dividem entre as duas parceiras. As etapas costumam ser estas:
1. Consulta e avaliação das duas: as duas parceiras passam por consulta e exames. Quem vai doar os óvulos precisa de uma avaliação da reserva ovariana. Quem vai gestar precisa de uma avaliação do útero e da saúde geral para a gravidez.
2. Escolha do doador de sêmen: o casal escolhe o doador em um banco de sêmen nacional ou importado, a partir de características físicas e do histórico de saúde. A identidade do doador é sempre sigilosa.
3. Estimulação ovariana e coleta: a parceira que vai doar os óvulos usa medicações hormonais por cerca de 10 a 12 dias. Depois, os óvulos são coletados em um procedimento rápido, com sedação.
4. Fecundação em laboratório: os óvulos são fecundados com o sêmen do doador, em geral pela técnica de ICSI, em que cada espermatozoide é injetado diretamente no óvulo. Os embriões se desenvolvem por alguns dias.
5. Preparo do útero: enquanto isso, a parceira que vai gestar usa hormônios para preparar o endométrio, a camada interna do útero onde o embrião se implanta.
6. Transferência do embrião: o embrião é colocado no útero da parceira que vai gestar. Os embriões que sobram podem ser congelados para uma nova tentativa ou para um segundo filho.
7. Teste de gravidez: o exame de sangue (beta hCG) é feito alguns dias depois da transferência.
Em muitos casos, a transferência não acontece no mesmo ciclo da coleta. Os embriões são congelados e transferidos depois, quando o útero da parceira que vai gestar está na melhor fase. Essa estratégia também dá tempo para o teste genético dos embriões, quando ele é indicado.
Quem doa os óvulos e quem gesta
Essa costuma ser a conversa mais delicada do casal, e também a mais pessoal. Não existe resposta padrão, mas alguns critérios médicos ajudam a decidir.
A idade e a reserva ovariana pesam mais
As chances de gravidez dependem principalmente da qualidade dos óvulos, e a qualidade cai com a idade. Por isso, quando há diferença de idade entre as parceiras, a avaliação costuma favorecer os óvulos da mais jovem ou da que tem melhor reserva ovariana. O útero, por sua vez, envelhece mais devagar. Uma mulher de 40 anos pode gestar bem um embrião formado com óvulos de uma parceira de 32.
A saúde de cada uma também conta
Alterações no útero, como miomas grandes, pólipos ou sequelas de endometriose, podem pesar na escolha de quem gesta. Condições clínicas que aumentam o risco na gravidez, como hipertensão ou diabetes, também entram na avaliação. Do lado de quem doa os óvulos, o médico olha a resposta esperada à estimulação e o histórico de saúde.
E o desejo das duas
Os critérios médicos indicam caminhos, mas não decidem sozinhos. Há mulheres que sempre quiseram viver a gravidez e outras que não têm esse desejo. Quando as duas estão em boas condições de saúde, a escolha é do casal. A conversa com a equipe médica serve para mostrar o que cada combinação muda nas chances, e não para escolher pelo casal.
Muitos casais também passam por uma conversa com psicólogo especializado em reprodução antes de começar. Ela ajuda a alinhar expectativas sobre os papéis, a pensar em como lidar com uma tentativa sem sucesso e a planejar como a história do nascimento será contada à criança. Assim como em outras famílias formadas com doador, contar cedo, com linguagem adequada à idade, costuma ser o caminho recomendado.
E se as duas quiserem gestar?
Uma possibilidade que muitos casais consideram é inverter os papéis no segundo filho. Na primeira gestação, uma parceira doa os óvulos e a outra gesta. Na segunda, trocam. Assim, cada uma tem a experiência de gerar os óvulos de um filho e de gestar o outro.
Se a ideia é ter irmãos com o mesmo doador, vale reservar amostras extras de sêmen desde o primeiro tratamento. Doadores saem de catálogo, e os bancos limitam o número de famílias atendidas por cada um.
Também é possível congelar os embriões que sobram do primeiro ciclo. Eles mantêm a idade dos óvulos no momento da coleta e podem ser transferidos anos depois para qualquer uma das parceiras.
Quais são as chances de gravidez
As chances do ROPA são as mesmas de uma FIV com óvulos da idade de quem os forneceu. Se os óvulos vêm de uma mulher de 32 anos, a expectativa é a de uma FIV aos 32, mesmo que a parceira que vai gestar tenha 40.
Fatores que influenciam o resultado:
• idade e reserva ovariana de quem doa os óvulos;
• número e qualidade dos embriões formados;
• condições do útero de quem gesta;
• uso de teste genético nos embriões, quando indicado.
O número de embriões transferidos segue a Resolução do CFM. Até 37 anos, são no máximo dois. Acima disso, até três. Com embriões euploides, aqueles com o número correto de cromossomos confirmado pelo PGT-A, o limite é de dois em qualquer idade. Muitas equipes priorizam a transferência de um embrião por vez, que reduz o risco de gestação de gêmeos.
Não existe resultado garantido em nenhuma técnica de reprodução assistida. A consulta inicial serve para estimar as chances do casal com base nos exames das duas.
Registro do bebê no nome das duas mães
A criança nascida por ROPA pode ser registrada diretamente em cartório com o nome das duas mães, sem processo judicial. O Provimento nº 149/2023 do Conselho Nacional de Justiça lista os documentos exigidos:
• declaração de nascido vivo, emitida pela maternidade;
• declaração do diretor técnico da clínica de reprodução assistida, com firma reconhecida, informando que a criança foi gerada por reprodução assistida e o nome das mães;
• certidão de casamento, escritura de união estável ou documento equivalente.
Em 2026, a Corregedoria Nacional de Justiça manteve a exigência da declaração da clínica e flexibilizou a do documento de união para pessoas sem vínculo conjugal. Para casais, a comprovação do casamento ou da união estável continua sendo pedida. Por isso, vale formalizar a união antes do nascimento, se isso ainda não foi feito.
O doador de sêmen não tem vínculo de parentesco com a criança, nem direitos ou deveres sobre ela. Essa regra também está no Provimento do CNJ.
ROPA ou inseminação: qual escolher
Nem todo casal de mulheres precisa ou quer fazer o ROPA. A outra opção comum é a inseminação intrauterina com sêmen de doador, em que a mesma parceira fornece os óvulos e gesta. É um procedimento mais simples e com menos medicação, mas com chances menores por ciclo.
A inseminação costuma ser indicada quando a parceira que vai gestar é jovem, tem boa reserva ovariana e as trompas estão livres. O ROPA faz mais sentido quando o casal quer dividir a participação biológica, quando a parceira que deseja gestar tem a reserva ovariana reduzida ou quando a inseminação já foi tentada sem sucesso.
Há ainda a FIV convencional, com óvulos e gestação da mesma parceira, indicada em situações parecidas com as da FIV para qualquer mulher. Para conhecer todas as possibilidades, veja também nosso conteúdo sobre formação de famílias LGBTQIA+.
Por que a inseminação caseira não substitui o tratamento
Alguns casais pensam em fazer a inseminação em casa, com sêmen de um conhecido. Além dos riscos de saúde, já que não há triagem de infecções nem de doenças genéticas, a prática cria um problema jurídico. O CNJ manteve em 2026 a exigência da declaração da clínica para o registro direto em cartório. Sem ela, o reconhecimento das duas mães depende de processo judicial, e o doador conhecido pode, no futuro, ter reconhecido um vínculo com a criança.
Perguntas frequentes sobre o método ROPA
O método ROPA é permitido no Brasil?
Sim. A Resolução CFM nº 2.320/2022 permite a gestação compartilhada em união homoafetiva feminina, em que o embrião formado com os óvulos de uma mulher é transferido para o útero da parceira.
É preciso ter diagnóstico de infertilidade para fazer o ROPA?
Não. A norma do CFM não exige infertilidade de nenhuma das parceiras.
O casal precisa ser casado para fazer o tratamento?
O tratamento não exige casamento. Para registrar a criança no nome das duas mães diretamente em cartório, porém, é preciso apresentar a certidão de casamento ou a escritura de união estável.
Posso conhecer o doador de sêmen?
Não. A doação é anônima no Brasil. O casal tem acesso às características físicas e ao histórico de saúde do doador, mas não à identidade.
Quem gesta pode ser mais velha do que quem doa os óvulos?
Pode. As chances dependem principalmente da idade dos óvulos, e o limite do CFM para gestar por reprodução assistida é de 50 anos, com exceções justificadas pelo médico.
Por onde começar
O primeiro passo é uma consulta em casal. Nela, a equipe avalia as duas parceiras, explica o que cada combinação de papéis muda nas chances e organiza os exames e a escolha do doador. Na Originare, a equipe de medicina reprodutiva acompanha casais de mulheres em todas as etapas do tratamento, presencialmente ou com primeira consulta por telemedicina.
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Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica individual. Diretor técnico-médico: Dr. Luiz F. Henrique, CRM-SP 120.314, RQE 575861.