Por que a FIV da sua amiga foi diferente da sua?
Ela tomou duas injeções por dia, você tomou três. Ela teve 15 óvulos, você teve 6. Ela fez a transferência cinco dias depois da coleta, e você ainda está esperando o resultado do teste genético para saber se vai ter embrião para transferir. Ela engravidou na primeira tentativa. Você está na segunda.
Comparar é quase inevitável. A amiga que fez FIV, o relato no Instagram, o grupo de WhatsApp de tentantes: todo mundo conta a própria experiência, e é natural medir a sua por elas. Só que duas fertilizações in vitro raramente são iguais, e não porque uma delas foi "mais bem feita". A FIV é um tratamento individual por definição. O protocolo, a dose, o número de óvulos, o tempo até a transferência e o resultado dependem de fatores que mudam muito de uma mulher para outra.
Este artigo explica quais são esses fatores e por que comparar a sua FIV com a de outra pessoa costuma gerar mais angústia do que informação.
A idade é o fator que mais pesa
Se existe uma diferença que explica boa parte das outras, é a idade. E o que conta é a idade dos óvulos, ou seja, da mulher no dia da coleta.
Com o passar dos anos, a quantidade de óvulos diminui e a proporção de óvulos com alterações cromossômicas aumenta. Isso tem efeito direto em cada etapa da FIV: menos óvulos coletados, menos embriões formados e uma parte menor desses embriões com o número correto de cromossomos.
Os dados de testes genéticos de embriões mostram essa diferença com clareza. Segundo números da Igenomix e da Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida (REDLARA) de 2023, a proporção de embriões euploides, aqueles com os cromossomos normais, foi de cerca de 65% em pacientes de até 34 anos, 42% entre 35 e 39 anos e 18% acima dos 40.
Se a sua amiga fez a FIV aos 32 e você aos 39, a comparação começa desigual antes mesmo da primeira injeção.
A reserva ovariana muda a resposta ao tratamento
Duas mulheres da mesma idade também podem ter respostas muito diferentes. A diferença costuma estar na reserva ovariana, a quantidade de óvulos que ainda existem nos ovários.
Ela é estimada antes do tratamento por dois exames:
• o hormônio antimülleriano (AMH), dosado no sangue;
• a contagem de folículos antrais, feita no ultrassom transvaginal.
Uma mulher com reserva alta costuma responder à estimulação com muitos folículos. Uma mulher com reserva ovariana baixa pode produzir poucos óvulos mesmo com doses altas de medicação. Nenhuma das duas fez nada de errado. É o ponto de partida de cada uma.
O diagnóstico define o caminho
A FIV é um tratamento usado para situações muito diferentes, e o motivo pelo qual cada mulher chega a ela muda o planejamento.
Na SOMP, antiga SOP, os ovários costumam ter muitos folículos e responder intensamente aos hormônios. A estimulação precisa de doses mais cuidadosas para evitar a síndrome de hiperestimulação ovariana. Muitas vezes, todos os embriões são congelados para transferência em um ciclo posterior.
Na endometriose, a doença pode afetar a reserva ovariana e o ambiente do útero, e o médico pode indicar um preparo específico antes da transferência.
Quando há fator masculino, como baixa contagem ou baixa mobilidade dos espermatozoides, a fecundação costuma ser feita por ICSI, em que cada espermatozoide é injetado diretamente no óvulo.
Já em quem faz FIV para congelar óvulos, para gestação compartilhada ou com sêmen de doador, sem um diagnóstico de infertilidade, o planejamento é outro.
Existem vários protocolos de estimulação
"Tomei as mesmas injeções que ela" quase nunca é verdade, mesmo quando os nomes dos remédios se repetem. Existem diferentes protocolos de estimulação, e a escolha depende da idade, da reserva ovariana, do diagnóstico e da resposta em ciclos anteriores.
Os protocolos variam em pontos como:
• a dose das medicações que estimulam os folículos, ajustada para cada paciente;
• o remédio usado para impedir que a ovulação aconteça antes da coleta;
• o momento de início, que pode ser no começo do ciclo menstrual ou em qualquer fase, nos protocolos de início aleatório;
• o medicamento usado para o "gatilho", a injeção que finaliza o amadurecimento dos óvulos antes da coleta.
Durante a estimulação, o médico acompanha o crescimento dos folículos com ultrassons e, às vezes, exames de sangue, e ajusta as doses ao longo do caminho. Por isso, o número de dias de injeção também varia. Duas mulheres que começaram no mesmo dia podem fazer a coleta em dias diferentes.
Mais óvulos não quer dizer mais chances, necessariamente
O número de óvulos coletados é o dado que mais circula nas conversas entre amigas. E é um dos que mais enganam.
Nem todo óvulo coletado está maduro. Nem todo óvulo maduro é fecundado. Nem todo embrião se desenvolve até o quinto ou sexto dia, a fase de blastocisto. E nem todo blastocisto tem os cromossomos normais. A cada etapa, uma parte fica pelo caminho, e isso é esperado.
Uma mulher de 30 anos com 8 óvulos pode chegar a mais embriões saudáveis do que uma mulher de 41 com 15. O que importa no final é a qualidade dos embriões que chegam à transferência, e ela depende muito da idade.
Transferência a fresco ou congelada
Outra diferença comum é o momento da transferência. Na transferência a fresco, o embrião é transferido no mesmo ciclo da coleta, poucos dias depois. Na transferência congelada, todos os embriões são congelados e a transferência acontece em um ciclo seguinte, com o útero preparado.
A transferência congelada costuma ser indicada quando há risco de hiperestimulação, quando os hormônios da estimulação deixaram o endométrio fora do ponto ideal ou quando os embriões vão passar por teste genético. Ela não é pior nem melhor por si só. É uma estratégia escolhida para cada caso.
O teste genético dos embriões
Algumas pacientes fazem o teste genético pré-implantacional (PGT-A), que avalia o número de cromossomos dos embriões antes da transferência. Outras não fazem. A indicação depende da idade, de perdas gestacionais anteriores, de tentativas sem sucesso e de outros fatores.
Quem faz o teste espera algumas semanas pelo resultado e, às vezes, descobre que não tem embriões euploides para transferir naquele ciclo. É um dos momentos mais difíceis do tratamento, e também um dos que mais gera comparação com quem transferiu sem testar.
O útero também conta
Um embrião saudável precisa de um útero preparado para recebê-lo. Pólipos, miomas, aderências, alterações do endométrio ou inflamações podem atrapalhar a implantação. Por isso, algumas pacientes precisam de exames ou procedimentos antes da transferência, como uma histeroscopia, e outras não.
O sêmen também faz parte da história
Quando se fala em FIV, a atenção costuma ficar toda na mulher. Mas a qualidade dos espermatozoides também influencia a fecundação e o desenvolvimento dos embriões. Concentração, mobilidade, forma e a integridade do DNA dos espermatozoides variam muito de um homem para outro.
Por isso, o espermograma e, em alguns casos, exames complementares fazem parte da avaliação do casal. Duas mulheres com perfis parecidos podem ter resultados diferentes porque os parceiros têm sêmen com características diferentes. Em tratamentos com sêmen de doador, o material passa por triagem nos bancos, e essa variável costuma pesar menos.
Cada ciclo ensina algo para o próximo
A primeira FIV também funciona como um teste. Ela mostra como os ovários respondem à medicação, quantos óvulos amadurecem, como os embriões se desenvolvem no laboratório e como o endométrio reage ao preparo.
Com essas informações, o médico pode mudar o protocolo no ciclo seguinte: ajustar a dose, trocar a medicação, mudar o gatilho, indicar o teste genético ou investigar o útero antes de uma nova transferência. É comum que o segundo ciclo de uma mesma mulher seja diferente do primeiro. Se até a mesma paciente tem ciclos diferentes, a comparação com outra pessoa faz ainda menos sentido.
E existe uma parte que ninguém controla
Mesmo com todos os fatores a favor, a FIV não tem resultado garantido. Um embrião euploide transferido em um útero saudável pode não implantar. A biologia tem uma parte de acaso que nenhum protocolo elimina.
Por isso, os especialistas costumam falar em chance acumulada: a probabilidade de gravidez ao longo de mais de uma transferência ou mais de um ciclo, e não apenas na primeira tentativa. Para muitas mulheres, o caminho tem mais de uma etapa. Isso não significa que algo deu errado.
Comparar ajuda ou atrapalha?
Conversar com quem passou pela FIV pode trazer acolhimento, dicas práticas e a sensação de não estar sozinha. Isso tem valor. O problema aparece quando os números da outra pessoa viram uma régua para avaliar o próprio tratamento ou a própria equipe médica.
Algumas perguntas ajudam a trocar a comparação por informação útil:
• por que este protocolo foi escolhido para mim?
• o número de óvulos coletados está dentro do esperado para a minha idade e a minha reserva?
• o que aprendemos com este ciclo para o próximo?
• qual é a minha chance estimada, considerando os meus exames?
A pessoa que tem essas respostas é o seu médico, não a sua amiga. E se as respostas não estiverem claras, vale pedir que ele explique de novo, ou buscar uma segunda opinião.
Perguntas frequentes
Por que cada mulher toma uma dose diferente na FIV?
Porque a dose é calculada a partir da idade, da reserva ovariana, do peso, do diagnóstico e da resposta em ciclos anteriores. O objetivo é estimular o suficiente sem provocar uma resposta exagerada.
Quantos óvulos são coletados em uma FIV?
Varia muito, de poucos a mais de 20. O número depende principalmente da idade e da reserva ovariana, e mais óvulos não significam, sozinhos, mais chances.
Por que algumas pacientes congelam todos os embriões?
A transferência congelada é indicada quando há risco de hiperestimulação, quando o endométrio não está no ponto ideal ou quando os embriões vão passar por teste genético.
Se eu não engravidei na primeira FIV, meu tratamento deu errado?
Não necessariamente. A chance de gravidez em cada transferência é limitada, e muitas mulheres precisam de mais de uma tentativa. O ciclo anterior traz informações para ajustar o próximo.
A idade influencia tanto assim o resultado da FIV?
Sim. A idade da mulher na coleta é o fator que mais afeta a qualidade dos óvulos e a proporção de embriões com cromossomos normais.
Por onde começar
Se você está planejando uma FIV, ou já fez e quer entender o que aconteceu no seu caso, a consulta é o lugar para essas respostas. Na Originare, cada protocolo é definido a partir dos exames, do diagnóstico e dos planos de cada paciente, com primeira consulta presencial ou por telemedicina.
Agende uma consulta com um especialista da Originare
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica individual. Diretor técnico-médico: Dr. Luiz F. Henrique, CRM-SP 120.314, RQE 575861.