SOMP: mitos e verdades sobre a síndrome que antes se chamava SOP

22nd of October, 2026

Em maio de 2026, a síndrome dos ovários policísticos ganhou um nome novo. Um consenso internacional publicado na revista The Lancet passou a chamá-la de síndrome ovariana metabólica poliendócrina, ou SOMP em português. A troca veio depois de uma pesquisa com mais de 14 mil pessoas, entre pacientes e profissionais de saúde, e teve o apoio de 56 organizações, entre elas a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

O nome novo corrige um erro antigo. A síndrome nunca foi uma doença de cistos, e também não fica restrita aos ovários. Ela atinge cerca de uma em cada oito mulheres em idade reprodutiva, e boa parte delas descobre o diagnóstico depois de anos de sintomas sem explicação.

A mudança também trouxe dúvidas, e muita informação desencontrada circula nas redes sociais. Reunimos aqui os principais mitos e verdades sobre a SOMP, com base no consenso de 2026 e na diretriz internacional de 2023. Cada afirmação está classificada como mito, verdade ou meia verdade.

O que é a SOMP

A SOMP é uma condição hormonal e metabólica. Ela costuma envolver ciclos menstruais irregulares ou ausentes, excesso de hormônios androgênicos (que se manifesta em acne, aumento de pelos ou queda de cabelo) e alterações no metabolismo, como a resistência à insulina.

O nome descreve essas três frentes. "Poliendócrina" indica que vários hormônios estão envolvidos. "Metabólica" mostra que a síndrome afeta o corpo todo, e não apenas o sistema reprodutor. "Ovariana" mantém o ovário no nome, porque ele continua fazendo parte do quadro.

Mitos e verdades sobre a SOMP

"A SOMP é uma doença de cistos no ovário": mito

Este é o mal-entendido que motivou a mudança de nome. As "bolinhas" que aparecem no ultrassom de muitas mulheres com a síndrome não são cistos. São folículos, pequenas estruturas que guardam os óvulos e que pararam de amadurecer antes da ovulação.

Um estudo de 2025 publicado na revista eClinicalMedicine, com 7.708 participantes, mostrou que muitas pessoas associavam o termo "ovários policísticos" a cistos ou até a tumores. Essa leitura causava medo e passava a ideia de um dano no ovário que não existe.

"Se o nome mudou, meu diagnóstico mudou": mito

Quem já tinha o diagnóstico de SOP continua com o mesmo diagnóstico, agora com outro nome. Os critérios usados pelos médicos e os tratamentos são os mesmos da diretriz internacional de 2023. O consenso só trocou o nome.

A transição será gradual. O consenso prevê três anos de adaptação, e a próxima atualização da diretriz internacional, usada em 195 países, está prevista para 2028. Por um bom tempo, você ainda vai ver "SOP" em laudos, receitas e sites.

"Ultrassom com muitos folículos é sinal de SOMP": mito

Ter muitos folículos no ultrassom não basta para o diagnóstico. Ovários com muitos folículos são comuns em mulheres jovens e saudáveis, e algumas mulheres com a síndrome têm o ultrassom normal.

Na mulher adulta, o diagnóstico exige pelo menos dois de três critérios:

•        ciclos menstruais irregulares ou ausência de ovulação;

•        sinais de excesso de androgênios no exame clínico ou nos exames de sangue;

•        ovários com muitos folículos no ultrassom ou hormônio antimülleriano (AMH) elevado.

Desde 2023, a diretriz internacional permite usar o AMH no lugar do ultrassom em mulheres adultas. Em adolescentes, nem o ultrassom nem o AMH devem ser usados para o diagnóstico, porque têm pouca precisão nessa idade. Nesse caso, contam o ciclo irregular e os sinais de excesso de androgênios.

"Só tem SOMP quem está acima do peso": mito

A síndrome aparece em mulheres de todos os pesos. A resistência à insulina, um dos componentes metabólicos da SOMP, pode existir em mulheres magras, e é por isso que a avaliação não depende do número na balança.

Quando há ganho de peso, ele costuma ser parte da síndrome, e não falta de disciplina. A diretriz de 2023 reconhece o estigma ligado ao peso no atendimento médico e recomenda que os profissionais perguntem antes de pesar a paciente e evitem linguagem que culpe a mulher.

"Perder peso resolve a SOMP": meia verdade

Para mulheres com excesso de peso, a diretriz internacional indica que uma perda de 5% a 10% do peso pode melhorar o ciclo menstrual, a ovulação e os marcadores metabólicos. Em alguns casos, isso basta para a ovulação voltar.

Mas a perda de peso não "cura" a síndrome, e não se aplica a todas as mulheres. Hábitos como alimentação equilibrada, atividade física e sono adequado fazem diferença para qualquer pessoa com SOMP, com qualquer peso. O plano deve ser feito com acompanhamento médico e, quando possível, de nutricionista. Dietas muito restritivas podem fazer mais mal do que bem.

"Quem tem SOMP não consegue engravidar": mito

A SOMP é uma das causas mais comuns de dificuldade para engravidar, porque a ovulação fica irregular ou não acontece. Mas a maioria das mulheres com a síndrome consegue engravidar, muitas vezes de forma natural ou com tratamentos simples.

O primeiro passo costuma ser regular a ovulação. A diretriz de 2023 indica o letrozol como primeira opção de medicamento para induzir a ovulação em mulheres com a síndrome. Quando ele não funciona, entram outras opções, como as gonadotrofinas, e a fertilização in vitro (FIV) fica reservada para casos específicos ou para quando as outras etapas não deram resultado.

Isso não significa que vale esperar indefinidamente. A orientação geral é procurar um especialista depois de 12 meses de tentativas sem sucesso, ou de 6 meses a partir dos 35 anos. Com ciclos muito irregulares, a avaliação pode ser feita antes, já que fica difícil saber quando a ovulação acontece.

"Mulheres com SOMP respondem bem à FIV, então é mais fácil": meia verdade

Mulheres com SOMP costumam ter muitos folículos e, por isso, podem produzir muitos óvulos na estimulação para a FIV. Isso pode ser uma vantagem, porque aumenta o número de embriões disponíveis.

A mesma característica, porém, aumenta o risco da síndrome de hiperestimulação ovariana, uma reação exagerada dos ovários aos hormônios do tratamento. Por isso, a estimulação de pacientes com SOMP pede protocolos ajustados, doses mais cuidadosas e, em muitos casos, o congelamento de todos os embriões para transferência em um ciclo posterior. Mais óvulos não garante mais chances de gravidez se o tratamento não for bem conduzido.

Se você tem SOMP e está pensando em congelar óvulos ou fazer FIV, veja também nosso conteúdo sobre congelamento de óvulos.

"A pílula anticoncepcional cura a SOMP": mito

A pílula é um dos tratamentos mais usados para quem não está tentando engravidar. Ela regula o sangramento, melhora a acne e o excesso de pelos e protege o endométrio, a camada interna do útero, que pode ficar espessa demais quando a menstruação demora muito a vir.

Mas a pílula trata os sintomas, não a causa. Quando ela é suspensa, o ciclo irregular e os outros sinais costumam voltar. Também não é verdade que a pílula provoca a síndrome. O que acontece com frequência é a mulher começar o anticoncepcional muito jovem, parar anos depois para tentar engravidar e só então perceber que o ciclo nunca foi regular.

"A SOMP aumenta o risco de diabetes e de doenças do coração": verdade

A síndrome vai muito além da ginecologia, e é isso que o nome novo tenta mostrar. Mulheres com SOMP têm mais risco de resistência à insulina, diabetes tipo 2, colesterol alterado, pressão alta e doença cardiovascular. Por isso, a diretriz recomenda acompanhar esses marcadores ao longo da vida, e não apenas na fase em que a mulher quer engravidar.

A saúde mental também entra na conta. Ansiedade e depressão são mais frequentes em mulheres com a síndrome, e a diretriz de 2023 recomenda rastrear esses quadros em todas as pacientes. Em muitos casos, o cuidado envolve ginecologista, endocrinologista, nutricionista e psicólogo.

"A SOMP passa depois da menopausa": mito

Os ciclos irregulares deixam de ser um problema depois da menopausa, mas o risco metabólico continua. Mulheres com a síndrome seguem com mais chance de diabetes e doença cardiovascular, e o acompanhamento deve continuar.

"Ciclo irregular merece investigação": verdade

Ciclo irregular não é "jeito do corpo" que se aceita sem perguntar. Ciclos que variam muito de um mês para o outro, que passam de 35 dias ou que somem por meses merecem investigação. Nem sempre a causa é a SOMP. Alterações da tireoide e da prolactina, por exemplo, podem dar sinais parecidos.

Hoje, até 70% das mulheres com a síndrome ainda não têm diagnóstico. Quanto antes ele vier, mais cedo é possível cuidar do metabolismo, proteger o endométrio e planejar a fertilidade com calma.

"Suplementos como o inositol tratam a SOMP": meia verdade

O inositol é muito divulgado nas redes sociais como tratamento natural para a síndrome. A diretriz internacional considera as evidências ainda limitadas e o trata como uma opção experimental, que pode ser discutida com o médico, mas não substitui os tratamentos estabelecidos. O mesmo vale para chás e outros suplementos vendidos como "cura".

Antes de começar qualquer suplemento, principalmente se você está tentando engravidar, converse com seu médico.

Perguntas frequentes sobre a SOMP

SOP e SOMP são a mesma coisa?

Sim. SOMP, síndrome ovariana metabólica poliendócrina, é o novo nome da síndrome dos ovários policísticos, definido em consenso internacional publicado na The Lancet em 2026.

Os critérios de diagnóstico mudaram com o novo nome?

Não. O diagnóstico segue a diretriz internacional de 2023: pelo menos dois de três critérios entre ciclo irregular, excesso de androgênios e ovários com muitos folículos ou AMH elevado.

Mulher magra pode ter SOMP?

Pode. A síndrome aparece em mulheres de todos os pesos, e a resistência à insulina também pode estar presente em mulheres magras.

Quem tem SOMP pode engravidar?

Sim. A maioria consegue, de forma natural ou com tratamento. O letrozol é a primeira opção de medicamento para induzir a ovulação.

A SOMP tem cura?

Não existe cura, mas existe controle. Com acompanhamento, é possível regular o ciclo, tratar os sintomas, cuidar do metabolismo e planejar a gravidez.

Por onde começar

Se você tem ciclos irregulares, sinais de excesso de androgênios ou já recebeu o diagnóstico de SOP e quer entender o que muda, o ponto de partida é uma avaliação completa, que olha o ciclo, os hormônios, o metabolismo e os planos de gravidez. Na Originare, a equipe de medicina reprodutiva acompanha mulheres com SOMP tanto na investigação quanto no tratamento para engravidar, com primeira consulta presencial ou por telemedicina.

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Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica individual. Diretor técnico-médico: Dr. Luiz F. Henrique, CRM-SP 120.314, RQE 575861.