Terapia Hormonal e Fertilidade: Como Planejar a Parentalidade Antes ou Durante a Transição de Gênero

17th of June, 2026

A terapia hormonal é uma etapa central no processo de transição de gênero para muitas pessoas trans, e também é um dos fatores que mais impacta a fertilidade futura. Isso não significa que transicionar e ter filhos biológicos sejam caminhos excludentes, significa que essa conversa precisa acontecer antes, com informação clara sobre o que a hormonização faz ao corpo e quais janelas de preservação ainda estão disponíveis em cada momento.

O ideal é que a preservação da fertilidade seja discutida com a equipe médica antes do início de qualquer intervenção hormonal ou cirúrgica que possa comprometer a capacidade reprodutiva. Quanto mais cedo essa conversa acontecer, maiores são as chances de sucesso no processo de coleta e armazenamento do material genético.

O que a terapia hormonal faz à fertilidade

Hormônios de afirmação de gênero atuam justamente sobre o mesmo eixo hormonal que regula a produção de gametas, óvulos e espermatozoides. Por isso, o impacto sobre a fertilidade não é um efeito colateral incomum, é uma consequência esperada do próprio mecanismo de ação desses hormônios.

Em homens trans (uso de testosterona)

A testosterona pode reduzir ou interromper a ovulação e, com o uso prolongado, levar à atrofia dos ovários. O efeito é, em parte, reversível, mas a reversibilidade não é garantida e depende de fatores individuais, como tempo de uso e idade. A principal estratégia de preservação nesse caso é o congelamento de óvulos, feito antes do início da testosterona, por meio de estimulação ovariana convencional.

Em mulheres trans (uso de estrogênio)

O estrogênio compromete a espermatogênese, processo de produção de espermatozoides, de forma que entre 50% e 70% das mulheres trans hormonizadas apresentam inibição significativa, em alguns casos irreversível, mesmo após a suspensão do tratamento. A estratégia de preservação recomendada é a criopreservação de sêmen, idealmente antes do início da terapia hormonal.

Quando a preservação já não foi feita antes de começar

Para quem já iniciou a terapia hormonal e não preservou material genético antes, ainda existem caminhos, embora mais limitados e dependentes de avaliação individual.

 

Situação

Possibilidade de preservação

Homem trans em uso de testosterona

Suspensão temporária do hormônio por algumas semanas pode permitir recuperação da função ovariana para coleta de óvulos

Mulher trans em uso de estrogênio

Chance reduzida de recuperação da espermatogênese com suspensão temporária; quando não há recuperação, TESE (extração testicular de espermatozoides) pode ser considerada

Pessoa que iniciou bloqueadores hormonais ainda na puberdade

Cenário mais limitado: a estimulação ovariana em pessoas designadas mulher ao nascer exige que a puberdade já tenha ocorrido

Pessoa que já realizou cirurgia de remoção de gônadas

Perda definitiva da capacidade reprodutiva natural; planejamento reprodutivo precisa ter ocorrido antes da cirurgia

 

Esse último ponto reforça por que a recomendação médica é sempre antecipar a conversa sobre fertilidade para antes do início de qualquer intervenção, hormonal ou cirúrgica: depois de certas etapas, a janela de preservação simplesmente se encerra.

Alternativa: congelamento de tecido ovariano

Para homens trans, existe ainda a opção do congelamento de tecido ovariano, retirado cirurgicamente e preservado para reimplantação futura. Essa técnica tem ganhado espaço por dois motivos: pode ser indicada para pessoas mais jovens, em casos em que a estimulação ovariana convencional não é viável, e a reimplantação, quando realizada, pode restabelecer não só a fertilidade, mas também ciclos menstruais com possibilidade de gravidez espontânea.

E se a pessoa engravidar durante o uso do hormônio

A testosterona não é um método contraceptivo. Mesmo com ciclos menstruais irregulares ou ausentes durante o uso, a ovulação pode ocorrer, e uma gravidez é possível. Caso isso aconteça, ou seja planejada nesse momento, o hormônio precisa ser suspenso até a normalização do eixo hormonal, sob acompanhamento médico, já que a continuidade do uso durante a gestação não é segura.

Planejamento reprodutivo como parte do cuidado, não como obstáculo

Falar sobre preservação de fertilidade antes da transição não deve ser tratado como uma barreira ou questionamento à decisão da pessoa trans, e sim como parte do cuidado integral oferecido pela equipe médica, da mesma forma que se discutem outros efeitos e expectativas do tratamento hormonal. A decisão de preservar, ou não preservar, material genético é inteiramente da pessoa, assim como o ritmo dessa conversa.

Esse acompanhamento é multidisciplinar por natureza, envolvendo endocrinologista responsável pela hormonização e especialista em reprodução humana, de forma que a transição de gênero e o planejamento reprodutivo sejam construídos em conjunto, e não em sequência desconectada.

Perguntas frequentes sobre terapia hormonal e fertilidade

É possível ter filhos biológicos depois de iniciar a hormonização?

Depende do tempo de uso, da idade e de fatores individuais. Em muitos casos, ainda é possível com avaliação médica especializada, mas a chance de sucesso é maior quando a preservação é feita antes do início do tratamento.

Parar a terapia hormonal recupera a fertilidade automaticamente?

Não de forma garantida. Em homens trans, a suspensão da testosterona pode recuperar a ovulação na maioria dos casos. Em mulheres trans, a recuperação da espermatogênese após uso prolongado de estrogênio é menos previsível e pode não ocorrer.

Quem já fez cirurgia de redesignação pode ter filhos biológicos?

Não, se houve remoção das gônadas (ovários ou testículos). Por isso a preservação de material genético precisa ocorrer antes desse tipo de procedimento.

A preservação de fertilidade atrasa o início da transição hormonal?

Costuma adicionar algumas semanas ao planejamento, tempo necessário para estimulação ovariana ou coleta de sêmen, mas não impede o início do tratamento hormonal posteriormente.

 

Conversar antes é o que preserva as opções

Transição de gênero e parentalidade biológica não precisam ser projetos excludentes, desde que o planejamento reprodutivo entre na conversa no momento certo, antes do início da terapia hormonal ou de procedimentos cirúrgicos que comprometam a fertilidade de forma definitiva. Quando essa conversa acontece a tempo, a pessoa mantém autonomia sobre as próprias opções futuras, sem precisar escolher entre afirmar sua identidade e preservar a possibilidade de ter filhos biológicos.

Se você está planejando iniciar terapia hormonal de afirmação de gênero, ou já iniciou e quer entender suas opções de preservação da fertilidade, agende uma consulta com a equipe de reprodução humana da Originare.

 

Fontes: Profam — Transição de gênero e preservação da fertilidade; Como fica a fertilidade das pessoas transgênero?; Preservação da fertilidade em pessoas transgênero; Clínica Pluris — Estratégias para preservação de fertilidade de pessoas trans; Genesis — Reprodução assistida para a população LGBTQIA+; Dra. Paula Vieira — Preservação da Fertilidade Transgênero. Conteúdo informativo, não substitui avaliação médica individualizada.