Testar cedo demais pode te enganar duas vezes
A transferência do embrião foi ontem. O exame de sangue está marcado para daqui a dez dias. E o teste de farmácia está na gaveta do banheiro.
Quase toda mulher em tratamento conhece essa vontade. Os dias de espera entre a transferência e o beta hCG costumam ser os mais longos do tratamento, e o teste de farmácia promete uma resposta rápida, barata e na privacidade de casa. O problema é que, nesse período, ele pode enganar de dois jeitos opostos: mostrar um negativo quando ainda é cedo para saber, ou mostrar um positivo que não vem de uma gravidez.
Este artigo explica por que isso acontece, quando o teste de gravidez passa a ser confiável e o que fazer com a ansiedade da espera.
Como o teste de gravidez funciona
Todo teste de gravidez, de farmácia ou de sangue, procura o mesmo hormônio: a gonadotrofina coriônica humana, o hCG. Ele é produzido pelas células que vão formar a placenta, a partir do momento em que o embrião se implanta no útero.
Depois da implantação, a quantidade de hCG no sangue sobe rapidamente, dobrando a cada dois ou três dias no início de uma gestação que evolui bem. Mas, nos primeiros dias, ela ainda é muito baixa.
Os dois tipos de teste diferem na sensibilidade:
• o teste de farmácia detecta o hCG na urina e só fica positivo quando o hormônio passa de um certo nível;
• o exame de sangue, o beta hCG quantitativo, mede a quantidade exata do hormônio e detecta valores muito menores.
Por isso, o beta hCG é o exame usado para confirmar a gravidez no tratamento. Além de dizer sim ou não, ele mostra um número, que pode ser acompanhado ao longo dos dias.
Primeira forma de enganar: o falso negativo
Na transferência de um blastocisto, o embrião de cinco ou seis dias, a implantação costuma acontecer nos dias seguintes à transferência. Só depois disso o hCG começa a ser produzido. E leva mais alguns dias para ele chegar a um nível que o teste de urina consiga detectar.
Se o teste for feito antes desse ponto, o resultado será negativo, mesmo que o embrião tenha implantado e a gravidez esteja começando. É o falso negativo.
O efeito emocional é grande. Muitas mulheres que testam cedo e veem um negativo passam os dias seguintes certas de que o tratamento não deu certo. Algumas pensam em parar a medicação por conta própria, o que nunca deve ser feito. A progesterona e os outros medicamentos de suporte devem ser mantidos até o beta hCG e até a orientação do médico, independentemente do resultado de qualquer teste caseiro.
Segunda forma de enganar: o falso positivo
O falso positivo é menos conhecido e, muitas vezes, mais cruel.
Em muitos protocolos de fertilização in vitro, a última injeção da estimulação, o chamado gatilho, é feita com hCG. Ela serve para finalizar o amadurecimento dos óvulos antes da coleta. Esse hCG injetado é exatamente o mesmo hormônio que os testes de gravidez procuram, e ele pode continuar no corpo por vários dias, às vezes por cerca de uma a duas semanas, dependendo da dose e do metabolismo de cada mulher.
Se o teste for feito nesse período, ele pode dar positivo por causa do remédio, e não por causa de uma gravidez. Em alguns protocolos, o hCG também é usado como suporte da fase lútea depois da transferência, com o mesmo efeito sobre os testes.
Há mulheres que veem o positivo, contam para a família e, dias depois, recebem um beta hCG negativo. Do ponto de vista delas, viveram uma gravidez e uma perda. Do ponto de vista médico, o primeiro resultado nunca foi uma gravidez.
Se você não sabe qual medicação foi usada no gatilho do seu tratamento, pergunte à equipe. Em transferências de embriões congelados, quando não houve gatilho com hCG no ciclo, esse risco costuma ser menor, mas a regra é a mesma: o exame que vale é o beta hCG na data marcada.
Quando o positivo é real, mas a gravidez não segue
Existe uma terceira situação que o teste precoce pode mostrar: a gravidez bioquímica.
Nela, o embrião chega a se implantar e produz um pouco de hCG, mas a gestação para de evoluir nos primeiros dias, antes de ser vista no ultrassom. Muitas gravidezes bioquímicas acontecem também em gestações naturais e passam despercebidas, confundidas com uma menstruação um pouco atrasada.
Quem testa muito cedo e repetidamente acaba vendo essas gestações que não seguiriam. O teste não causou a perda, mas a mulher passa a viver uma sequência de esperança e decepção que, sem o teste, não teria acontecido do mesmo jeito. Para quem já está emocionalmente cansado do tratamento, isso pesa.
Quando fazer o teste depois da transferência
Na Originare, o beta hCG costuma ser marcado entre 9 e 11 dias depois da transferência do embrião, de acordo com o protocolo de cada paciente. Nesse intervalo:
• o embrião já teve tempo de implantar e produzir hCG em quantidade detectável no sangue;
• o hCG do gatilho, quando usado, já teve tempo de ser eliminado na maioria dos casos;
• o resultado vem com um número, que permite acompanhar a evolução nos exames seguintes.
A data exata pode variar conforme o tipo de embrião transferido e o protocolo. Siga a data indicada pela sua equipe.
O primeiro número não conta a história inteira
Um beta hCG positivo é uma ótima notícia, mas ainda é o começo. Em geral, o médico pede um novo exame alguns dias depois para ver se o valor está subindo como esperado. A confirmação de uma gestação que evolui vem com o ultrassom, algumas semanas depois, quando é possível ver o saco gestacional e, depois, os batimentos do embrião.
Valores baixos ou que sobem devagar não significam, sozinhos, que a gestação não vai seguir. Mas exigem acompanhamento mais de perto, e só o médico pode interpretar esses números no contexto de cada caso.
E fazer o beta hCG antes da data, no laboratório?
Algumas pacientes pensam que o exame de sangue resolve o problema, já que é mais sensível. Ele detecta valores menores do que o teste de farmácia, mas também sofre as mesmas interferências quando feito cedo demais. Antes da implantação, o resultado vem negativo. Nos primeiros dias depois do gatilho com hCG, ele pode mostrar um valor que vem do remédio. A sensibilidade maior não muda a biologia: o que define a confiabilidade é o momento do exame.
Se o beta hCG der negativo
Um beta hCG negativo na data certa é uma notícia dura, e a primeira reação costuma ser procurar o que deu errado. Na maior parte das vezes, não houve erro de ninguém. Mesmo um embrião de boa qualidade pode não implantar, porque cada transferência tem uma chance limitada de gravidez.
A consulta depois de um resultado negativo serve para revisar o ciclo: como os ovários responderam, como os embriões se desenvolveram, como estava o endométrio e se há embriões congelados para uma nova transferência. Com essas informações, o médico pode ajustar o próximo passo. Também é um bom momento para pedir apoio psicológico, se a equipe oferecer, e para respeitar o tempo de cada um antes de decidir sobre uma nova tentativa.
E fora do tratamento, quando testar
Para quem está tentando engravidar naturalmente, a orientação geral é fazer o teste de farmácia a partir do primeiro dia de atraso da menstruação. Antes disso, a chance de um falso negativo é alta. Se o teste der negativo e a menstruação não vier, vale repetir alguns dias depois ou fazer o exame de sangue.
Quem tem ciclos muito irregulares, como acontece com frequência em mulheres com SOMP, a antiga SOP, pode ter dificuldade para saber quando a menstruação está atrasada. Nesses casos, o beta hCG costuma ser mais útil do que o teste de farmácia.
Como atravessar a espera
Saber que o teste precoce engana não faz a ansiedade desaparecer. Algumas estratégias ajudam muitas pacientes:
• combinar com o parceiro ou a parceira que nenhum dos dois vai testar antes da data;
• não deixar testes de farmácia em casa durante a espera;
• planejar atividades leves para os dias mais difíceis, como encontros com amigas, filmes e caminhadas;
• evitar grupos e fóruns que comparam sintomas e resultados dia a dia;
• conversar com a equipe ou com um psicólogo se a ansiedade estiver atrapalhando o sono, o trabalho ou o dia a dia.
Também ajuda lembrar que sintomas como cólica, sensibilidade nos seios ou cansaço não indicam se o tratamento deu certo. Eles podem aparecer com ou sem gravidez, porque muitos são causados pela própria progesterona do tratamento. Ter sintomas não garante a gravidez, e não ter sintomas não significa que ela não aconteceu.
Para entender o que fazer e o que evitar nos dias seguintes à transferência, leia também nosso artigo sobre o dia da transferência embrionária.
Perguntas frequentes
Quantos dias depois da transferência posso fazer o teste de gravidez?
O beta hCG costuma ser feito entre 9 e 11 dias depois da transferência, conforme o protocolo. Siga a data indicada pela sua equipe.
O teste de farmácia pode dar positivo por causa da medicação do tratamento?
Pode. Quando o gatilho da ovulação é feito com hCG, o hormônio pode continuar no corpo por alguns dias e gerar um falso positivo.
Testei antes da data e deu negativo. Devo parar a medicação?
Não. Um teste feito cedo pode dar negativo mesmo com gravidez. Mantenha toda a medicação até o beta hCG e a orientação do médico.
O que é gravidez bioquímica?
É uma gestação em que o embrião chega a produzir hCG, mas para de evoluir antes de ser vista no ultrassom. É comum e muitas vezes passa despercebida em gestações naturais.
Sintomas depois da transferência indicam gravidez?
Não. Cólica, sensibilidade nos seios e cansaço podem ser efeitos da progesterona e aparecem com ou sem gravidez.
Por onde começar
Se você está em tratamento, a sua equipe é a melhor fonte para tirar dúvidas sobre medicação, data do exame e o que esperar depois do resultado. Se você está começando a planejar e quer entender cada etapa da fertilização in vitro, da estimulação à espera pelo beta hCG, agende uma consulta com a Originare, presencial ou por telemedicina.
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Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica individual. Diretor técnico-médico: Dr. Luiz F. Henrique, CRM-SP 120.314, RQE 575861.