Saúde reprodutiva para mulheres sáficas e homens trans: o que saber sobre prevenção e fertilidade
Muitas mulheres lésbicas e bissexuais já ouviram em consulta que não precisam fazer o preventivo porque "não transam com homem". Muitos homens trans ouvem que, se usam testosterona, não podem engravidar. As duas afirmações estão erradas e as duas afastam pessoas de cuidados de que elas precisam.
A saúde reprodutiva de mulheres sáficas e de homens trans tem pontos em comum com a de qualquer pessoa com útero e ovários, e tem particularidades que pouca gente conhece. Este guia reúne o essencial sobre prevenção, infecções sexualmente transmissíveis, contracepção e planejamento de filhos, incluindo a preservação da fertilidade antes da hormonização.
De quem estamos falando
Mulheres sáficas são mulheres que se relacionam afetiva ou sexualmente com outras mulheres: lésbicas, bissexuais, pansexuais e outras identidades. Homens trans são pessoas que foram designadas mulheres ao nascer e se identificam como homens. Muitos mantêm útero e ovários, com ou sem hormonização.
Boa parte do que está aqui vale também para pessoas não binárias que têm útero e ovários. O que define o cuidado é o corpo e os planos de cada pessoa, e não um rótulo.
Preventivo e HPV: o exame continua necessário
O câncer do colo do útero é causado principalmente por alguns tipos de HPV, um vírus transmitido pelo contato de pele e mucosas durante o sexo. Isso inclui o contato genital direto, os dedos e o compartilhamento de acessórios sexuais. Não é preciso ter relação com homens para se expor ao HPV.
Mesmo assim, estudos brasileiros mostram que mulheres lésbicas e bissexuais fazem menos o exame preventivo, muitas vezes por acharem que não precisam ou por terem passado por atendimentos constrangedores. A recomendação de rastreamento é a mesma para todas as pessoas com colo do útero, independentemente da orientação sexual ou das práticas sexuais.
O exame também vale para homens trans que não retiraram o útero, mesmo em uso de testosterona. A hormonização pode deixar o tecido mais fino e o exame mais desconfortável. Vale avisar a equipe, que pode usar um espéculo menor e explicar cada etapa antes. O SUS está substituindo o Papanicolau pelo teste de DNA-HPV, que identifica o vírus e permite intervalos maiores entre os exames.
A vacina contra o HPV é outra forma de proteção. Ela é oferecida no SUS para faixas etárias definidas pelo Ministério da Saúde. Fora dessas faixas, está disponível na rede privada.
ISTs entre mulheres também acontecem
O risco de transmissão de algumas infecções entre mulheres é menor, mas não é zero. Herpes, HPV, sífilis, tricomoníase e clamídia podem passar pelo contato entre mucosas, por fluidos e pelo compartilhamento de acessórios. A vaginose bacteriana, que não é uma IST, mas é um desequilíbrio da flora vaginal, também é mais frequente entre mulheres que se relacionam com mulheres.
Algumas medidas reduzem o risco:
• usar camisinha nos acessórios sexuais e trocá-la ao passar de uma pessoa para outra;
• lavar os acessórios depois do uso;
• usar barreiras como a camisinha feminina recortada ou o filme plástico no sexo oral;
• fazer testes de IST periodicamente, principalmente com novas parcerias.
Os testes rápidos de HIV, sífilis e hepatites B e C são gratuitos no SUS. Para homens trans, as mesmas medidas valem de acordo com as práticas e as parcerias de cada um.
Testosterona não é anticoncepcional
Esta é uma das informações mais importantes para homens trans que mantêm útero e ovários. A testosterona costuma suspender a menstruação, mas não impede de forma segura a ovulação. A gravidez é possível mesmo sem menstruar, em quem tem relações com penetração e exposição a sêmen.
Além do risco de uma gestação não planejada, a testosterona não deve ser usada durante a gravidez, porque pode afetar o desenvolvimento do bebê. Por isso, a recomendação é usar um método contraceptivo quando houver risco de gravidez. Entre as opções compatíveis com a hormonização estão os métodos só com progestagênio, como o implante, o DIU hormonal e a pílula de progestagênio, além do DIU de cobre. Métodos com estrogênio em geral não são indicados.
A escolha do método deve ser feita com o médico, levando em conta a hormonização e as preferências de cada pessoa.
Fertilidade antes da hormonização
A testosterona pode afetar a fertilidade, e ainda não se sabe com precisão quanto desse efeito é reversível em cada pessoa. Muitos homens trans que suspenderam a hormonização voltaram a ovular e engravidaram, mas não há como garantir esse resultado com antecedência.
Por isso, a orientação sobre fertilidade faz parte da avaliação antes de começar a hormonização. A Resolução CFM nº 2.427/2025, que regula o atendimento a pessoas com incongruência de gênero, registra que hormônios podem reduzir a fertilidade e que a preservação de gametas é possível. A mesma norma define que a hormonização só pode começar a partir dos 18 anos.
Congelar óvulos antes de começar
Para quem tem ou pode ter o desejo de ter filhos com o próprio material genético, a alternativa mais estabelecida é congelar óvulos antes de iniciar a testosterona. O processo é o mesmo do congelamento de óvulos para qualquer pessoa: cerca de 10 a 12 dias de medicação hormonal para estimular os ovários e uma coleta rápida, com sedação.
A estimulação envolve hormônios associados ao corpo feminino e, em geral, ultrassons transvaginais. Para algumas pessoas, isso pode ser difícil do ponto de vista emocional. Uma equipe preparada pode adaptar a abordagem e explicar cada etapa, e o acompanhamento psicológico ajuda nesse momento.
E quem já está em hormonização
Quem já usa testosterona também pode congelar óvulos ou fazer uma fertilização in vitro. Tradicionalmente, a hormonização é suspensa por alguns meses antes da estimulação. Uma revisão publicada em 2026 na revista LGBT Health reuniu relatos de homens trans que fizeram a coleta sem suspender a testosterona, com bons números de óvulos. Mas a evidência ainda é pequena, e a decisão de manter ou suspender o hormônio precisa ser tomada caso a caso, com o médico.
Cirurgias e fertilidade
Mastectomia e outras cirurgias que não envolvem útero e ovários não afetam a fertilidade. Já a retirada do útero e dos ovários é definitiva. Por isso, a conversa sobre preservação de fertilidade deve acontecer antes dessas cirurgias.
Ter filhos: os caminhos para mulheres sáficas
Casais de mulheres e mulheres sáficas que desejam ser mães sozinhas têm acesso às técnicas de reprodução assistida no Brasil. A Resolução CFM nº 2.320/2022 permite que qualquer pessoa capaz seja receptora das técnicas, dentro dos limites da norma, sem exigência de diagnóstico de infertilidade.
Os caminhos mais comuns são:
• inseminação intrauterina com sêmen de doador, indicada em geral para quem é mais jovem, tem boa reserva ovariana e trompas livres;
• fertilização in vitro com sêmen de doador, quando a idade ou a reserva ovariana pedem uma técnica com mais chances por ciclo;
• método ROPA, a gestação compartilhada, em que uma parceira fornece os óvulos e a outra gesta.
Em todos os casos, o sêmen vem de um banco nacional ou importado, e o doador é anônimo. Para mulheres que planejam a maternidade sem parceria, veja também nosso guia sobre maternidade independente.
Ter filhos: os caminhos para homens trans
Homens trans que mantêm útero e ovários podem gestar. Também podem fornecer os óvulos para que a parceira ou o parceiro gestem, quando a outra pessoa tem útero. As possibilidades dependem da parceria:
• com uma mulher cis ou um homem trans com útero, um dos dois pode fornecer os óvulos e o outro gestar, em um arranjo parecido com o ROPA, usando sêmen de doador;
• com um homem cis ou uma mulher trans que tenha preservado o sêmen, é possível usar o sêmen da parceria;
• sem parceria, o caminho é semelhante ao da maternidade independente, com sêmen de doador.
Quando o homem trans vai gestar, a testosterona precisa ser suspensa antes da tentativa e durante toda a gestação. A volta dos ciclos ovulatórios leva alguns meses, que variam de pessoa para pessoa. O acompanhamento pré-natal deve ser feito por uma equipe que respeite o nome e a identidade do paciente, o que faz diferença real na adesão ao cuidado.
O registro da criança
Desde 2024, por decisão do Supremo Tribunal Federal, a Declaração de Nascido Vivo usa os campos "parturiente/mãe" e "responsável legal/pai", para incluir pessoas trans. Com isso, um homem trans que gesta pode constar como pai no documento que dá origem ao registro.
Para crianças nascidas por reprodução assistida, o Provimento nº 149/2023 do CNJ orienta o registro direto em cartório, com a declaração da clínica onde o tratamento foi feito. O doador de sêmen não tem vínculo de parentesco com a criança. Como as situações familiares variam muito, vale buscar orientação jurídica antes do nascimento.
Acolhimento faz parte do cuidado
Muitas mulheres sáficas e homens trans deixam de procurar atendimento depois de uma consulta em que foram tratados com desrespeito, ouviram suposições sobre a vida sexual ou tiveram o nome e os pronomes ignorados. O resultado é menos exames, diagnósticos mais tardios e decisões reprodutivas tomadas sem informação.
Na consulta, você tem o direito de ser chamado pelo nome social e de ter a identidade respeitada. Também pode explicar suas práticas sexuais e seus planos sem julgamento, e pedir explicações sobre qualquer exame antes de ele começar. Se isso não acontecer, procure outra equipe.
Perguntas frequentes
Mulher lésbica precisa fazer o preventivo?
Sim. O HPV também é transmitido no sexo entre mulheres, e a recomendação de rastreamento do câncer do colo do útero é a mesma para todas as pessoas com colo do útero.
Homem trans em uso de testosterona pode engravidar?
Pode. A testosterona não é um método contraceptivo seguro, mesmo quando suspende a menstruação. Quem tem risco de gravidez deve usar um método contraceptivo.
A testosterona deixa homens trans inférteis?
Ela pode reduzir a fertilidade, e não há como prever com segurança quanto esse efeito é reversível em cada pessoa. Por isso, a recomendação é conversar sobre preservação da fertilidade antes de começar a hormonização.
Homem trans pode congelar óvulos?
Pode, antes ou depois de iniciar a hormonização. A decisão sobre suspender a testosterona para a coleta é feita caso a caso com o médico.
Casal de mulheres pode fazer fertilização in vitro?
Pode. A Resolução CFM nº 2.320/2022 permite o tratamento sem exigir diagnóstico de infertilidade, e casais de mulheres podem optar pela inseminação, pela FIV ou pelo método ROPA.
Por onde começar
Se você quer cuidar da saúde reprodutiva, planejar filhos ou entender suas opções antes da hormonização, o primeiro passo é uma consulta com uma equipe que conheça essas particularidades. Na Originare, a equipe de medicina reprodutiva atende mulheres sáficas, homens trans e pessoas não binárias em todas as etapas, do congelamento de óvulos à gestação, com primeira consulta presencial ou por telemedicina.
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Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica individual. Diretor técnico-médico: Dr. Luiz F. Henrique, CRM-SP 120.314, RQE 575861.